quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Fala, Heródoto! A batalha pela ética


Quando um grupo de homens se  reuniu para decidir o destino do povo, não tinham um programa  de governo definido. O que os unia era a luta contra a opressão, a busca da cidadania negada pela aristocracia e o direito de resolver por conta própria. Enfim, de não ser comandado, mas de comandarem. Não podiam aceitar leis que não tinham discutido, urdidas por interesses que atingiam os homens de bem e que trabalhavam arduamente para pagar os impostos. Tinham o sonho de lutar pela felicidade. Quem poderia negar o direito de alguém sonhar com uma sociedade mais justa, humana e libertária?
 
Os ingleses da Inglaterra não queriam nem permitiam que os ingleses das 13 Colônias tivessem as mesmas atribuições políticas que tinham obtido desde a Revolução Gloriosa, no final do século 17. Essa história de debater os projetos antes de transformá-los em lei era exclusiva dos cidadãos que habitavam a Metrópole. Não se estendia para os colonos da América do Norte. Estes, quando se conscientizaram que as conquistas políticas da Metrópole não os beneficiariam, resolveram se separar. Juntar as colônias e fundar um país. Os founder fathers não tinham um programa de governo pronto. Nem mesmo de um país. Mas sabiam  o que queriam e um deles, Jefferson, resumiu de forma brilhante esse sonho da Declaração da Independência das Treze Colônias.
 
O primeiro programa de governo se consolidaria com a constituição, alguns anos depois. Mas os pais fundadores eram homens probos. Honestos. Éticos. Comprometidos com o ideal de fundar um país que abrigasse uma sociedade em transformação rápida, porém sem corrução, conchavos, privilégios e uma aristocracia dominante. Tiveram o cuidado de não criar um sistema viciado, dominante, sujo e que se reproduziria para sempre. As estruturas fora concebidas abertas para arejar a política e – como disse muito tempo depois o juiz Louis Brandeis – o melhor detergente ainda é a  luz do Sol. 

Fica claro que não adianta mudar os homens se o sistema não muda. Como se diz por aí, mudam apenas as moscas. No nosso país, o sistema político está armado para que tudo mude para ficar tudo do mesmo jeito. Para encantar o povo, abre-se brecha para o populismo, para o salvador da pátria, que depois de eleito vai ter de compor com os guardiões dos privilégios e desigualdades. Dominam um sistema que é republicano apenas no nome,  uma vez que as pessoas não são iguais perante a lei. O “primeiro andar” impede que a mudança suba as escadas, ou chegue de elevador. A sociedade brasileira – pode parecer um exagero – tem algumas caraterísticas da sociedade de castas. A origem, as corporações, os privilégios, a plutocracia e outros elementos estruturais querem mandar para sempre. Mesmo com as eleições que ocorrem a cada dois anos.
 

Mas há esperança no ar. O século 21 é o tempo da disrupção e uma delas é o advento das mídias sociais, manipuladas com maestria pelos jovens. Estes têm acesso à informação e formação e são senhores de um instrumento de emissão de ideias nunca visto. Uma vez engajados, esclarecidos, organizados, podem se transformar nos founder children da democracia brasileira.

CRÉDITO DA IMAGEM: DIVULGAÇÃO RECORD NEWS


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